G2-NOVO
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Vaga de Emprego

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Adones Cruz

Adones CruzColuna de literatura

06/10/2020 20h02
Por: Adones Cruz
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Um sujeito que acorda molhando os cabelos e usa óleo vencido para controlar os indícios de seus fios rebeldes, não merece essa vaga, pensou. Francisco era razoavelmente calmo, porque para se manter, como muitos, usava a razão. Compreendia em certo grau esta dislógica que abrigava as coisas, porém nem sempre sustentava. Observava a variação colorida da pele de um brasileiro, imaginava que se descendesse direto dos reis, não estaria procurando emprego. Era uma fábrica majestosa, pensou. Tinha no símbolo de sua marca uma coroa. Levaria ele, a coroa no peito do uniforme, vestiria a camisa. Lembrou que caberia bem essa fracassada analogia. Será que se falasse} analogia, a palavra, iria impressionar? Ficou na dúvida, usaria se fosse necessário, como era agora as contas e sua fome.

Não muito longe, debruçada sobre a janela, Francisca, tomava café solúvel, ela achava engraçado (Solúvel). Era uma moça graciosa. Compreendia em certo grau a dislógica que abrigava as coisas. Mas logo, de imediato, se recobrava. O choro de uma criança pode ser maior que qualquer filosofia, pensou. E mais, não era novidade o que indagava, afinal os educadores falam com propriedade, de manhã, na televisão. Refletiu ter sorte, por estar bem informada. A fábrica tinha abono salarial para mães, um luxo, talvez por isso, carregasse uma coroa como símbolo. Quando pequena, ouvia histórias de rainhas, se fosse uma construiria mais creches, daria emprego a todos os educadores do bairro, os que não estavam na televisão. No entanto, não é tão bom a monarquia, pensou, com um singelo riso de despedida para o filho.

Viajaram no mesmo ônibus, Francisco e Francisca, até o RH da fábrica.  Nenhum notou o outro, ambos estavam ávidos de necessidade, somente quando desembarcaram no mesmo local, trocaram olhares, meio, talvez carinhosos, até o RH da fábrica. Ali tudo se igualava, era como um contrato competitivo, que anulava a libido de qualquer um, não se ama com fome, pensaram os dois. Eram dados a pensamentos, a razão. Claro que fora do corpo pensante, haviam pequenos ensaios de energia voluptuosa. Francisco pensou naquele instante, que talvez tivesse que usar uma loção mais caprichosa para os cabelos, não aquele óleo. Assim que conseguisse o emprego, iria investir mais em si. Francisca respondeu o questionário com altivez. Com filho ou sem filho? Até pensou em mentir, mas era uma fábrica luxuosa, com uma coroa, foi sincera.

A consumosa espera de respostas, novamente os igualava, como se perdessem os gêneros, e servissem a um propósito maior que o corpo, apesar de todo aquele esforço, ser justamente para a manutenção biológica. Pensaram... Francisco só esperava a hora que pudesse usar a palavra] analogia} Francisca, pensou em (Solúvel), para se distrair. Pois bem, avaliados os currículos, Francisco tem aval positivo de contratação. Francisca não, pensou que realmente seria difícil, saiu chorando, não em escândalo, apenas de modo notável, pensou que sua vida era um filme, e que seria uma ótima atriz, como seria uma ótima Rainha, como é uma ótima mãe, e foi.

Francisco também pensou que ela seria uma ótima atriz, mas já estaria contente se estivesse sido contratada, e que empenhar o papel de auxiliar, seria um necessário desafio. Francisco indagou. – Aquela moça quem é? O estagiário, que carregava uma coroa no peito de seu uniforme, respondeu: - não sei.... Pera aí. É a candidata número 321, para o cargo tal... – Não! O nome da moça. – Desculpe senhor, já a perdi aqui, esse sistema é complicado. Francisco pensou que podia ceder a vaga dele para ela, afinal, apesar da fome dos últimos dias era ainda um cavalheiro, mas estava confuso com a confusão do rapaz e resolveu deixar para lá.

À noite, Francisco pensou em Francisca, sem saber seu nome, logo adormeceu, deveria acordar cedo, para o novo emprego.