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Democracia Literária

escritores online, novas formas de contar.

Adones Cruz

Adones CruzColuna de literatura

11/10/2020 13h56Atualizado há 1 semana
Por: Adones Cruz
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djinn-gallery: “ Colette Calascione Hummingbird Girl ”
djinn-gallery: “ Colette Calascione Hummingbird Girl ”

A relação humana com a escrita e a leitura, data-se desde das primeiras pinturas rupestres, até hoje, com nossos rápidos cliques. Quem obteve o domínio da interpretação dos símbolos e das palavras, estabeleceu um contrato de poder a muitos povos e regiões em toda história. Parece que estamos distantes desta realidade. No entanto, dados do IBGE apontam que no Brasil em 2019, possuíamos pelos menos 11,3 milhões de pessoas analfabetas. A expressão continental tupiniquim perpassa por todos esses registros de poder. Apesar desta realidade histórica estar batendo na nossa porta, num diferente contraste os acessos a internet em busca de literatura vem aumentando cada vez mais. Não obstante, boa parte do contato com a escrita que temos no cotidiano, acontece através da telas de celulares e computadores.

Para compreender esses novos processos, convidamos dois escritores onlines. Uma Mulher feminista e Uma Pessoa não binária, que nos falam sobre sua inserção nas redes e os aspectos da democratização literária através de plataformas onlines, na perspectiva de seus olhares, sensações e sentimentos. Agora, escritos.

 

Aline Guerios

Aline Guerios, (des)crente no amor monogämico e nessa cisheteronormatividade que nos empurraram goela abaixo. Escritora nas horas de surto ou quando senta a bunda na cadeira só pra isso. Escreve pra nenhuma revista, nenhum jornal e não tem mais de 200 seguidores onde publica seus textos  @poesiametoda. Tenta sobreviver ao mundo e ao doutorado em Literatura, na UFSC; resiste na cidade de Itajaí, mas Mestrou apaixerrou na cidade verde, que é cinza, de Maringá. Já re.trabalhou e des.na.morou em Xanxerë, mas já nasceu numa madruga de 88, em Pato Branco. Voluntariou e viajou de viagens em Londres, Amou em Munique e quer fazer topless em Barcelona.

“eu escrevo porque não consigo dormir e durmo porque não consigo escrever”.

 

Estilo literário, autora /autor preferido

 

Poemas curtos e quando estou muito revolts ou na bad, crônica textão. Já escrevi dramaturgia, conto infantil, mas nunca tirei uma noite na vida pra tentar escrever um romance ou uma novela. Essas tentativas foram só na cama mesmo, e quando tentaram ser mais que isso: FAIL.  Comecei ler depois de adulta e alguns esses dias aí: Paulo Leminski, Ana Cristina Cesar, Conceiçao Evaristo, Rupi Kaur, Luiza Romao, Ni Brisant, Adones Cruz e todes artistas mortes e vives. Ins.piro-me diaria.mente, com a mesma frequência que apai.xono-me. sou uma xonada pelo ser humano e pela poesia em tudo. “As minhas revoltas não cabem no papel e o papel é pouco pra minha poesia”.

 

O papel da internet para a democratização dos acessos literários

 

Ainda é muito caro publicar no Brasil. e ter acesso aos livros (desde criança ou não) também ainda é privilégio. olhar para as formas de edições marginais, como cordel, zines, cartoneras e movimentos verbais, como slam de poesia, rap (rhythm and poetry) do hip-hop, sarau da perifa, etc; são exemplos de, como a publicação online, maneiras de democratizar o acesso e o direito à literatura, que é de todes.

 

vontade de escrever em alguma plataforma online

 

Me apaixonei pela literatura na oitava série - nono ano, quando a profe de Literatura pediu que tivéssemos um caderno só para as leituras, escolas literárias e autoras. Foi o trabalho que mais amei fazer na minha vida. Ver poesia em tudo. Colocar a minha criatividade e hiperatividade naquelas fatias de árvores e ver a palavra tornando-se pronúncia. Eu d.escrevo desde quando estudei o Ensino Médio na UTFPR - Pato Branco. Na universidade, r.escrevia-me nas carteiras, nas últimas páginas do caderno. Vi.aja comigo.

 

Plataformas e maneiras de escrita

 

Mestrado IFSC Xanxere - (Des)TVlize-se(R) carimbo e instagram. Doutorado. Escutando música. Antes de dormir, caderneta e caneta na maleta

 

Dicas de escritores onlines

@luizaromao] @nibrisant ] @victor] @aline] @poesia de rua

 

Novos tempos e literatura Brasileira

Acho que não podemos falar de uma linguagem e movimento artístico-cultural sem enfatizar que tudo que produzimos é um ato político: seja a fala, o gesto, a escrita, a dança. Sem contar que tudo na vida é um ato político: comer, vestir, amar, postar. No século xviii “penso, logo existo”. XIX apareço,logo existo, XX consumo, logo existo e XXI posto, logo existo.

 

Felipe Brum

É água no mar é maré cheia, mareia, mareia! Permita que me apresente, Felipe Brum, @felipebrurmj, mas pode chamar de Feh? Não sei se homem ou mulher, melhor chamar de transviado! 23 anos de pura gambiarra, drag queen, mãe drag de 24 adolescentes, estudante, escritor de uma mão inteira de livros, modelo em ascensão, apresentador, youtuber, e acima de tudo preto, o que me permite minhas histórias e a de muitas outras. Às vezes artista, às vezes arte!

Eu escrevo porque meu coração teimoso, canceriano e transbordante bombeia para minha mente avisos que para que eu me mantenha de pé eu preciso fazer isso. Sinto um aviso do meu corpo, dizendo, se expresse, bote no papel o que você sente, por você e pelos outros! Essa vida vai acabar e no fim dela eu preciso olhar pra minha biblioteca interna e vê-la cheia!

Estilo literário, autora /autor preferido

Se meu eu literário morasse numa música seria em “Últimos Romances” – Los Hermanos, eu gosto das metáforas, dos simbolismos, dos textos que acontecem no presente, mas sobrevivem do passado, duma cena na introdução que é resgatada no livro 2, de um personagem que evolui, leio muitos gêneros, e o favorito é romance; mas não como filme de romance, os romances podem nem falar de amor, da não realização dele, do ódio a ele ou propor uma reformulação do amor, mas romance fala de coração, de se derramar...

O papel da internet para a democratização dos acessos literários

“Vamos deixar que entrem que invadam o seu lar/ Pedir que quebrem e que acabem com o seu bem estar”. Pra mim a democratização deve ser anárquica, ela deve invadir salas de aula, celulares, mobiles e quem a puder ter. Enaltecemos nossos antigos escritores, mas muitos eram formados em medicina ou direito e estudantes europeus, advindos do Instituto Rio Branco, o escritor moderno, contemporâneo e/ou pós- moderno, ele escreve na folga, na “madruga”, no “busão”, a democratização bota o livro no colo de quem não tem 30 reais pra pagar um livro, põe sonho no colo de uma menina do interior, põe representatividade nas mãos e coração de um jovem adolescente, que sem ver seu lugar no mundo, acha no ambiente literário!

vontade de escrever em alguma plataforma online

Eis que me sinto como alguém nomeado ao Oscar que acaba de ganhar o prêmio da academia, e enquanto levanto e caminho até o palco do Teatro, arrastando meu vestido de pedraria vermelhas e brilhantes, eu digo que escrevo na Wattpad, e posso ver sentado no teatro todos os meus colegas escritores e leitores, 30 milhões de usuários. Gratuita e acessível, com um ou dois anúncios talvez, mas muito promissora, casa de leões, ninho de águias! A ideia de escrever surgiu quando eu, um aluno muito comunicativo, mas preguiçoso não queria me dedicar às ciências exatas então inventava histórias, e os colegas liam, e foi ficando cada vez mais sério. Até o momento que, no quarto, minha mãe com câncer, no outro um irmão adolescente, em 40 minutos de banho um pré-adolescente, e uma crianças brincando no modesto quintal, eu na sala, televisão ligada, notebook aberto, e uma vontade surreal de escrever, já que havia parado de estudar para cuidar desse novo universo! E eis que surge a ideia de escrever um livro, tantas ideias que na mesma noite que vieram vi que não seria um,mas quatro, e isso era 2016, e aqui estamos em 2020.

Dicas de escritores onlines

Chegay no alto do palco, e vejo todo o teatro – andar no salto requer perícia – e me dirijo Às galerias e ao fundo, aos eu virão e chegarão à frente. Eu digo aos escritores o óbvio: Escrevam! Produzam! Pra você, pode ser que ninguém entenda, mas essa veia pulsante sem eu coração faz você saber para o que você nasceu, nós somos deuses contemporâneos, criamos mundos adaptamos realidades, transformamos pranto em festas, e acredite, uma hora alguém lerá o que você fez e isso será tudo o que ela precisava naquele momento, pode apenas parecer mais uma pedra no rio, mas é isso que o que faz ser tão cheio! E lembre-se você é do tamanho dos seus sonhos, por isso, acredite nele! Alimente-o! Olhe Oprah, Lázaro Ramos, Djamila, Jordan, Michele Obama e tantos outros e outras! É isso.

Novos tempos e literatura Brasileira

Esse é aquele momento na saída do palco que um repórter te para, amo! “amanhã há de ser outro dia...Apesar de você, amanhã de ser outro dia” Eu acredito muito na nossa grande potência, fé nas crianças, todas essas crianças lendárias que estão aí se reinventando através dos séculos, no contexto Brasil, fomos de cordel até à web, do lampião da esquina até os blogs, acho que nosso solo, tão exasperado, árido e subtropical faz surgir grandes nomes, da composição, poema e escrita, a “escrevivência” da mestra Conceição Evaristo é nítida nos textos de Carolina Maria de Jesus e Rupi, Nossa escrita fala do nosso país, de quem somos, do nosso povo, de nossa gente. Os novos tempos sempre estarão para quem recorrer à eles, tenha fé em si, na escrita nacional, nas editoras, no poder do livro, o poder social, o poder educacional, o poder interativo, o poder transformador, o livro não é um objeto, o livro é um portal de acesso!