G2-NOVO
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Cabeceira de Cama

conto

Adones Cruz

Adones CruzColuna de literatura

14/10/2020 20h51Atualizado há 7 dias
Por: Adones Cruz
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NA CAMA, 1892 POR HENRI DE TOULOUSE LAUTREC (1864-1901, FRANÇA)
NA CAMA, 1892 POR HENRI DE TOULOUSE LAUTREC (1864-1901, FRANÇA)

Numa cidade vizinha, um pouco menor daquela em que residiam, havia uma cerraria moveleira onde eram produzidas as últimas linhas de móveis de madeira na região. Já se anunciava para mais de uma semana, que Seu Caetano vinha sentindo dores nas costas, queixando-se constantemente para Sebastiana, dezessete anos mais nova,ela não sentia dores, mas reclamava que não estava pegando fácil no sono, lá pela madrugada, quase sempre ás quatro da manhã acordava e para dormir no mínimo mais uma hora, era sempre um dificultoso sacrifício, enquanto Seu Caetano roncava. Nisso, ocorreu uma decisão mútua, iriam comprar um cabeceira nova, para guardar o sono de Sebastiana, e talvez, aliviar as dores de Seu Caetano.

No caminho até o local, Sebastiana puxava uma conversa qualquer, sobre a natureza dos objetos feitos a madeira, e de como fariam uma decisão acertada. Silencioso, Caetano apenas dava uns resmungos de observação, nem sempre positivos. Ela, entusiasmada, indagava se ele não tinha ouvido aquela barulheira a noite, não sabia se os cachorros ladravam em uma espécie de raposa ou gambá, ou se havia alguém rondando a casa. Tanta falação deixava Caetano com dores maiores, ilustrava a decepção com a esposa, arqueando as sobrancelhas e resmungando de maneira mais aguda, ela percebia, já estava acostumada, então diminuía e aumentava seus comentários, de acordo com os avais rupestres do marido.

Próximos a cerraria, Sebastiana ficava um pouco mais descontente, gostava de sair de casa. Desceram do carro, e logo que Caetano encontrará um de seus conhecidos desandava-se a falar, a rir. Nesses momentos Sebastiana se aproximava um pouco mais do esposo, achava que sua locução era boa, que ele sabia o que dizia, era mais pontual e assertivo que ela, então ele escolheria o melhor móvel, e mais, pagaria o menor preço por todos esses benefícios. Ao se afastar, um pouco por distração, Sebastiana dá com os olhos em um lindo roupeiro, portas envernizadas, abriu e sentiu o cheiro de resina da madeira, seria muito útil já que saia pouco, usava menos do que queria suas roupas e acabou por consequência disso acumulando sapatos, vestidos e bolsas, e além do mais, dividiam o roupeiro, ela e Caetano. O marido aproximava-se cada vez mais, e ela não quis, desta vez, correr o risco de soar enfadonha e nada falou.

Na volta, seguia muda, enquanto Caetano bradava as vantagens da cabeceira nova que haviam comprado, da cor, da madeira de angico que fora feita, ou qualquer coisa do tipo. Sebastiana continuava a pensar em suspiros no guarda-roupas, e quase que podia sentir o cheiro da resina, aliás o sentia. No entanto percebera que vinha da cabeceira, que atrás do carro, encaixada, ficava balançando gerando um barulho desconfortável.  Sebastiana equilibrava os pensamentos imaginários entre os sons verdadeiros da cabeceira, por muito tempo sua imagem fixa a perseguiu, como um amante, o qual só ela sabia e o desejava. Em casa, Sebastiana foi fazer o almoço, enquanto Caetano montava a cabeceira. Chamou-o para comer, ele veio sentou à mesa, colocou a primeira colherada na boca, e reclamou do sal em excesso, disse que era coisa de mulher apaixonada. Os dois se olharam lembrando que já haviam tocado um no corpo do outro, até mesmo com as línguas e que o corpo de uma pessoa também é salgado, mas não em excesso.

Incrivelmente, durante a noite, os dois dormiram sonolentos. Caetano cansado do trabalho braçal e Sebastiana exausta de pensamentos. Acordados, ele com pouca dor nas costas e ela sem insônia a noite toda. Sebastiana acreditou que haviam feito a coisa certa, e de como ela estava sendo injusta, alimentado seus pensamentos com o roupeiro. Era segunda, Caetano foi para o trabalho. A tarde Sebastiana sentou na beirada da cama, observando a cabeceira, agora quieta, conseguiu admira-la ao mesmo tempo que ainda nutria um desejo para com seu amante, o roupeiro. Parada, analisava que talvez não dormisse por conta dos roncos de Caetano, e que as dores dele, eram restos de seu espirito inquieto que não dormira a noite toda. Sentiu-se, ao mesmo tempo que inteligente pela constatação, temerosa, talvez ele também houvesse descoberto esse segredo e a noite nem voltasse para casa.

Caetano voltou, não reclamou da janta, elogiou a esposa. E ela desenrolou uma conversa longa sobre seus afazeres diários, a louça, o sabão, os pratos, as vassouras, as roupas. As roupas, enfatizou de como estava contente com o guarda-roupa antigo, foi uma ação perigosa, mas não havia ninguém ali que a desmentisse. Caetano resmungou e falou da cabeceira uma ou três palavras. Passariam dali em diante comprar móveis somente naquele lugar, e indicariam para os conhecidos. Verdade, matutava Sebastiana.

- Dona Edvirgem, aquela que mora aqui do ladinho, a primeira vizinha, ontem mesmo se queixou que vem dormindo mal.