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Adones Cruz

Adones CruzColuna de literatura

28/10/2020 20h38Atualizado há 4 semanas
Por: Adones Cruz
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"A Empregada" - George Lambert Pintor australiano (1873-1930)

Lucinda via a cidade do Rio de Janeiro pela televisão, a novela hoje seria reduzida por conta do futebol. Como de costume, preparou chá de maçã e biscoitos com creme de leite. Foi até a louça de vidro, pegar uma xícara. Teve então a ideia, de que ao invés da mesma de sempre iria ariscar a porcelana. Seria uma atitude tão espontânea que se assemelharia como uma dama, tal qual a Helena da televisão. Claro que Helena tinha uma empregada, que por acaso era mais parecida com Lucinda. Não se fazendo de rogada ela mesmo preparou seu chá na elegida xícara e num ato, talvez presunçoso. Lucinda começou a encenar uma das cenas da novela:

- Vamos Joaquina se apresse, hoje receberemos a visita de um importante diplomata, tudo deve estar no seu devido lugar. - Arrume toda casa, elabore... (Lucinda achou de bom tom usar: Elabore) enfim...

- Elabore um prato...

Lucinda tentou lembrar o nome de alguma comida, que pudesse utilizar sotaque estrangeiro para compor sua frase...

Na escola que fez as primeiras séries de aula, foi o único local do mundo, onde havia experimentado alguém de outro país. Juan, um menino argentino, veio para o Brasil porque seus pais estavam falidos na época, não se sabe bem o motivo, em todo caso era sua única referência, e qualquer estrangeiro, aparenta uma riqueza material mais firme. Helena mesmo, na novela, tinha ares sei lá de que país não era integralmente daqui. Rumorava Lucinda, até formular a esperada frase, sotaqueando um idioma portonhulesco.

- Elabore um prato de arroz com bifes {ARROZ COM BIFES}

Começou a rir, descontroladamente. Riu tanto, que começou a sentir os dentes. Já havia sonhado que perdeu todos eles e sorria banguela. Lucinda não era “mística” e esse tipo de sonho, para ela, não queria dizer nada, se nada, pouca coisa. Devia ser o medo que tinha de se tornar como sua avó que foi perdendo naturalmente a dentição, até que precisasse de cuidados no fim da vida para se alimentar, pois sempre recusava a dentadura, não achava natural, como ao certo, não parecia muito natural as ruas que ilustravam na novela, mas era o Rio de Janeiro, e deveria ser exatamente assim.

Cansada da curta atuação e com riso já diminuindo a ponto de voltar uma tranquilidade incomoda ao corpo, se pôs a ver os últimos capítulos, comendo com as pontas dos dedos seus biscoitos, resquícios da antiga persona que durou poucos minutos. Helena, na trama, tinha uma vida muito atribulada, cada drama, que mulher que não tinha descanso, bastava um encontro com um galã juvenil, e ficava atordoada. Lucinda muito pelo contrário, evitava essas coisas de amor, como falava:  gosta mesmo é de vê-las na televisão, e afinal, Helena lhe chama muito mais a atenção, do que aqueles engomadinhos, é uma mulher tola, mais decidida, cheia de si. Tem os homens aos seus pés e pode escolher. Como Lucinda escolhia qual biscoito comer primeiro, até que sobrasse um só, o mais esfarelado.

Na chamada para a parte final, Lucinda olhou no relógio e percebeu que hoje teria mais tempo, para talvez ensaiar uma nova atuação. Contudo, estava cansada de mais e iria dormir, aproveitar o tempo para o descanso, já que tinha uma vida menos barulhenta que a de Helena. Foi até o quarto, embaixo das cobertas, na cama, sentiu a maciez dos lençóis e considerou como a vida era boa, como tinha que agradecer, e que havia tantas pessoas passando fome e frio, apesar de não ter visto nenhum morador de rua em Copacabana, na novela. Ali, logo abaixo do quartinho reduzido que morava, vivia sobre os papelões, Seu Antônio. No passado, em moço, pode ser que cultivasse feições de um galã, agora não.

Adormeceu tranquilamente, teve até a oportunidade de experimentar aquelas variações do sono pesquisadas pelos cientistas, sono rem. Acordou inteiramente disposta, usava a pia de lavar a louça para escovar os dentes, não era uma mania, na pia do minúsculo banheiro, sempre batia os cotovelos na porta ao menor movimento, ali estava mais confortável. Quando colocou a escova na boca e sentiu as primeiras cerdas encostando apenas na gengiva, recordou aquele sonho recorrente, e que na noite passada havia o tido. Um leve susto, mas era sã o suficiente, para não ter ido em disparada ao espelho, ver se estava tudo no lugar. Suspirou, gargarejou, penteou para trás os cabelos, e desta vez, uma das únicas, esqueceu de passar perfume. Lucinda era uma senhora dada a alguns caprichos.