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Finados

poema

Adones Cruz

Adones CruzColuna de literatura

02/11/2020 20h48Atualizado há 1 mês
Por: Adones Cruz
Fonte: .
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Roberto van der Ploeg - Milharal
Roberto van der Ploeg - Milharal

A lágrima deitada

num ano com travesseiros regados

e chão rachado, sem chuva.

 

Amanhece um pouco de sereno

na plantação de milho

ao lado do cemitério

 

Os crânios dos dois sem cabelos

meus avós à sete palmos

a espiga e as sementes ainda

noutra vida

na dor do verde

que corta a folha

da por enquanto não criatura

 

Atravessar o milharal

todas essas almas

em outras épocas

teriam água

 

Hoje a rua empoeirada

revela a travessia cansativa

Dum caboclo

Que quando sadio

Trazia um rio de suor nas costas

e na encosta do milharal

antes da romaria

no dia de finados

chovia.