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Música e literatura:

O som da palavra

Adones Cruz

Adones CruzColuna de literatura

06/12/2020 08h37Atualizado há 6 meses
Por: Adones Cruz
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Arte de Emílio Juane (2019) em:
Arte de Emílio Juane (2019) em:

Desde dos primeiros tambores de nossos antepassados a palavra vem acompanhada do som, do corpo, da dança. A própria letra dita ou escrita é barulho vivido transformado em comunicação. Até aqui a melodia atravessou as palavras de inúmeras maneiras, músicas transformadas em escritos literários e poesias-histórias em canção. Para entrar nesse universo sonoro: A Coluna de literatura convida Emílio Juane; poeta e músico chapecoense, para nos contar como o som conversa com a escrita e o que surge das suas vivências até virar arte dita e ouvida.

   Para você o que significa a palavra escrita e a palavra dita?

A palavra é um meio pelo qual disseminamos ideias. Escrever, para mim, é cimentar minha resistência. Deixar uma história escrita e cantada. Palavra é grito quando precisa ser, tem peso. Quero levar o poder da palavra pra caneta e pra boca dos meus. Não basta ser voz, é preciso ensinar a gritar.

Que substância artística torna o som música?

A música é uma mensagem sonora. Discordo da ideia de que a música precisa ser agradável aos ouvidos, porque muitas vezes a mensagem é dolorosa, mas quando direcionado, o sentimento de empatia transmitido na música causa mudanças importantes. Música é empoderamento. Faz a gente acreditar ou desacreditar nas coisas. É convencimento. Por isso canto sobre como nosso corpo é certíssimo, nossa existência é honrosa e nosso futuro é lindo, porque eu sei que quando a palavra poética subversiva entra pelos ouvidos, ela dissipa as negativas do mundo já enraizadas e transforma a insegurança em coragem.

 Sua palavra e seu som preferidos:

Minha palavra favorita é coragem. Penso que tudo que nos propomos a fazer começa com coragem. Mesmo quando não temos conhecimento o suficiente, precisamos tomar a decisão e começar por algum lugar. Pela minha fé, aprendi que um único instante da nossa vida pode mudar toda nossa história e das pessoas que nos cercam. É o instante em que tomamos uma decisão corajosa. Eu procuro coragem onde posso me reconhecer.

Sem dúvidas, minha playlist é um ato político. Há algum tempo decidi que quero ouvir e conhecer tudo que puder, mas pra além disso, quero ter como um princípio valorizar artistas LGBTQIA+, mulheres, negros e indígenas. Procuro ouvir músicas de artistas independentes e questionadores, ter como referência pessoas que engrandeçam minha percepção de mundo através da diversidade. Algumas das minhas maiores inspirações são: Rap Plus Size, Nina Simone, Mc Versa, Kaê Guajajara, Drik Barbosa, Bixarte Mc, Linn da Quebrada, Jup do Bairro, Mc Tha, Hot e Oreia, Rico Dalasam, Ventura Profana, Cristal.

Emílio, em sua primeira canção de estúdio: “Frenesí”, você usa rimas e uma batida, para falar de despedidas e abandonos. Você trabalha a letra a partir do som, vice – e versa. Ou os dois brotam de maneira simultânea? 

Quando comecei a me conectar com a poesia de SLAM e o movimento Hip Hop, eu não pensava muito para escrever. Tinha momentos de inspiração frequentemente e meus caderninhos eram preenchidos em algumas semanas. Sempre ando com bloquinhos e cadernos no bolso, para anotar tudo que vejo - com olhar mais profundo -. Minha escrita mais sincera vem da vivência: quando experiencio situações que incitam sentimentos intensos como euforia, esperança, indignação, raiva, orgulho; quando conheço uma pessoa inspiradora; quando aprendo uma coisa nova sobre mim ou sobre o mundo; quando tomo uma decisão importante.

Hoje minha escrita está muito mais direcionada à música. Utilizo beats de boom bap, trap e funk mesclados com diversos outros ritmos que encontro na internet para compor. Quando surge uma ideia de letra, tento identificar qual o melhor ritmo para encaixar e faço testes, brinco com as possibilidades. Outras vezes, ouço o beat, faço um freestyle e já escrevo a letra em cima disso.

Como surge o "flow" em você, no seu corpo matéria e nas suas sensações?

Não existe sensação melhor do que explorar o mundo da composição sem medo. Não existem regras. Enquanto sou aprendiz desse universo, tento aproveitar cada pequeno passo que dou. Componho cantando, dançando, rindo alto, gritando, rugindo, inventando, rindo outra vez e celebrando alegremente os acertos. É o meu momento. 

Quem é o compositor de hoje, sua maneira de compor mudou?

Durante estes dois últimos anos, amadureci muito minha forma de compor. Aprendi a observar mais minhas referências, abraçar os elementos com os quais me identifico nas músicas que ouço. Desenvolvi uma preocupação maior com o conteúdo e a forma como é transmitido. Também passei a me preocupar mais com o interpretação do receptor. Porém, tenho me esforçado para não me pressionar tanto em relação à criação. Procuro não perder o equilíbrio entre o que quero dizer e o que precisa ser dito, afinal somos feitos de muitas versões e todas elas podem ser arte.

Vem álbum novo por aí, de que maneira você fala do mundo através dos seus gestos e sua voz? O que podemos esperar desse novo som, em identidade visual e musical?

O meu primeiro álbum é um trabalho que nasceu em 2018. A ideia surgiu das minhas indignações com as opressões do mundo e dos meus anseios para o Hip Hop. Me deparei com a falta de incentivo, representatividade e reconhecimento dentro do movimento. Por isso, decidi somar nessa comunidade de artistas LGBTQIA+, falar para os meus e mostrar pro mundo um pouco do que vivemos, trazendo essa discussão para o oeste catarinense através do rap. No álbum, cada faixa representa uma fase pela qual passei e estou passando durante o meu processo de transição. Ele contará com a participação de algumes artistes trans da região e está sendo produzido pelo Katharsis Studio, em Erechim.

Depois de muitas frustrações na procura por um profissional que tivesse a visão sensível do conceito do álbum, eu encontrei o Marcos, por indicação de uma amiga. O processo de produção está sendo trabalhoso, mas satisfatório. Estou crescendo muito, muito mesmo com ele. Agradeço imensamente ao Marcos pela sua sensibilidade, empatia e dedicação neste trabalho.

Por último, nos fale sobre suas literaturas preferidas e como influenciaram na sua construção enquanto artista?

Eu sempre gostei muito de poesia. Apesar de não ter me debruçado à leitura quando criança, sempre carreguei comigo o hábito de escrever como forma de organizar sentimentos. Daí surgiu essa vontade de conhecer as letras. Hoje eu curso Letras e estou conhecendo o mundo da literatura.

Sou muito curioso. Gosto muito de aprender coisas novas e imergir em tudo que subverta a lógica normativa. Estou fazendo aulas de teoria musical com a minha talentosa amiga Luna Matana e também faço parte do grupo experimental de teatro CON.T.R.A.C.A.P.A., que me proporciona o desenvolvimento de outras habilidades. É assim que tenho construído minha identidade artística: junto todas as vivências e faço conexões que se transmutam em arte.

Fico muitíssimo agradecido pelo espaço, Adones. É gratificante poder compartilhar meus processos e reconhecer minha trajetória por meio disto. Ainda tenho muito chão para percorrer e muitas nuvens para alcançar. Sigo de coração aberto.