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Covid-19

"É terrível, pior que o câncer. Deixem a festa pra depois", apela esposa de vítima fatal da covid-19

Policial aposentado, Carlos César da Silva morreu no último dia 13.

23/12/2020 11h57
Por: Diego Salmon Franke
Fonte: Rádio Rural
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No fim de tudo, Lurdes diz que resta apenas a saudade e as lições aprendidas.
No fim de tudo, Lurdes diz que resta apenas a saudade e as lições aprendidas.

Desde o dia 13 de dezembro, a vida da família Silva perdeu um pouco da graça. O coronavírus venceu a luta que eles travavam. Um dos maiores exemplos da família foi levado pela covid-19. Carlos César da Silva, popular Bruxo, é uma das 40 mortes registradas em Concórdia. Ele morreu no Hospital São Francisco, depois de semanas travando uma batalha contra a temida doença que aflige o mundo todo.

Poucos dias depois de completar 64 anos, Carlos César foi diagnosticado com a covid-19. A doença rapidamente se alastrou e tomou conta dele. O quadro se agravava diariamente. E a família não tinha o que fazer, a não ser ver a vida dele se esvaindo a cada dia. A dor é um sentimento que os acompanha desde então. E, para Lurdes da Silva, de 63 anos, a esposa do Bruxo, é difícil superar.

Em entrevista à reportagem da emissora, ela relatou o drama de ser uma paciente e de conviver com quem hoje é mais um número na estatística de uma doença que já matou mais de 180 mil pessoas em todo o Brasil. Os dois se contaminaram ao mesmo tempo e não sabem como aconteceu. Lurdes conta que o pulmão do marido foi totalmente tomado pelo vírus, enquanto que ela teve sintomas como falta de ar e até desmaio.

“Fazia dias que eu percebia que ele tinha dificuldades para caminhar, para puxar o fôlego. Daí, dias depois, eu comecei os sintomas. Deu uma dor estranha nas pernas, corpo dolorido. No sábado, já não sentia cheiro de nada. Ele começou com febre, 40 de febre e não abaixava. Quando o meu marido fez a tomo, ele não tinha mais uma gotinha de pulmão, eu fiquei só com 40% de pulmão. Terrível”.

Como a maioria das vítimas fatais da doença, Carlos César fazia parte do grupo de risco, aquele mais vulnerável contra o vírus, não apenas pela idade. Há 11 anos, ele foi diagnosticado com um câncer, o qual venceu. Mas, Lurdes é taxativa ao afirmar que o sofrimento dele durante a covid foi muito maior contra a doença de uma década atrás. Para ela, ele viveria por muito mais tempo caso não tivesse contraído covid-19.

“Essa doença é pior que o câncer. Ele não sofreu nem a metade do que sofreu agora. Há dois anos, ele pegou uma bactéria no maxilar, fez cirurgia, tinha problema no coração, tireoide. [Ele ia continuar vivendo] muito tempo, exatamente isso. O vírus entra no corpo silencioso e vai pegando tudo que tem de bom dentro e vai consumindo”.

E tudo isso veio por conta de algum deslize, cujo Lurdes não sabe qual foi. Ela contou, na entrevista à emissora, que a família se cuidava de todas as formas, conforme mandam os protocolos de saúde. Tanto é que nem a família visitava mais ela e o marido. Assim mesmo, o coronavírus encontrou uma brecha, relata Lurdes.

“A gente se cuidava muito. Álcool em gel, água e sabão, máscara. A gente não saia, não ia em festa, eu não tomava chimarrão, nunca fui em mercado. Nunca estava em aglomeração, em festa. [Qual descuido já é um risco] e dos grandes”, frisa ela.

A covid-19 já está na sociedade há pelo menos um ano e mudou a forma como a população mundial se organiza. Com a chegada do natal e um ano depois de vários cuidados, a população, cansada, quer comemorar as festas de fim de ano ao lado de quem gosta e não vê há muito tempo. Mas Lurdes tem um recado para essas pessoas.

“Meus queridos amigos, vovô e vovó, jovem, titio e titia, aguardem. Se vocês querem fazer festa, façam depois da vacina. Nada de aglomeração, nada de festa, de praia. Vale a pena esperar um ano para se encontrar com o amigo, do que perder a vida em uma semana. Porque não tem nada mais triste do que perder a pessoa que a gente mais ama. Não tem nada mais triste ver a pessoa perdendo a vida e a gente não poder fazer nada, a pessoa não poder respirar”.

No fim de tudo, Lurdes diz que resta apenas a saudade e as lições aprendidas. “Muita tristeza, saudades. Mas, como se diz, tudo passa. Se cuidem, gente. Se vocês tem alguma coisa pra fazer hoje, façam, não esperem. Digam te amo, meu marido, te amo meu filho, meu amigo”.

Policial aposentado, Carlos César da Silva deixou dois filhos, os netos e uma cachorrinha, que era a principal companhia do casal nos últimos meses onde viviam, na Vila Militar, na casa em que os dois moravam e ficavam distante de todos tentando se prevenir contra a doença.