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Covid-19

“Em anos de profissão, nunca vivi algo assim. Espero que chegue logo a vacina”, diz médica infectologista de Concórdia

Em entrevista especial, Clarissa Guedes falou da rotina em 2020 e expectativa para o futuro.

30/12/2020 10h27
Por: Diego Salmon Franke
Fonte: Rádio Rural
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Médica orienta as pessoas que o vírus deve permanecer forte até a metade de 2021.
Médica orienta as pessoas que o vírus deve permanecer forte até a metade de 2021.

O ano de 2020 foi marcado por um vírus que isolou a população em todo mundo, infectou diversas pessoas, matou outras e mudou a forma como vivemos. A pandemia causada pelo novo coronavírus reconfigurou tudo que conhecíamos. Foi a principal pauta dos noticiários, o assunto das rodas de conversa, o tema de debates acalorados nas redes sociais.

Na linha de frente, os médicos lidaram dia após dia com uma doença desconhecida. Enquanto parte da população se recolhia, eles estavam em hospitais tentando salvar os pacientes contaminados. Em Concórdia, diversos profissionais da área de saúde atuaram nesta frente. E um deles é a médica infectologista do Hospital São Francisco, Clarissa Guedes.

Uma das responsáveis pela ala da covid-19 na unidade hospitalar, Clarissa foi uma das pessoas mais requisitadas pela imprensa, por autoridades públicas e, principalmente, pelos pacientes. Ao Voz Da Cidade, foram várias entrevistas. Várias orientações, recomendações e alertas à população. Tudo sempre em meio aos atendimentos diários em uma pandemia. 

Na manhã desta quarta-feira, dia 30, a médica concedeu uma entrevista especial à reportagem da emissora, onde falou sobre toda a rotina envolvendo o trabalho relacionado à doença e ainda pediu que as pessoas continuem se cuidando, pois é possível que os casos de covid-19 continuem até o meio do ano. Na oportunidade, ela também falou sobre a vacina, e falou de como o insumo é confiável e aguardado com ansiedade. Confira trechos da conversa:

Rotina em 2020

“Foi um ano difícil, atípico. Ha bastante tempo venho trabalhando com doenças infecciosas. Fiz 20 anos de formada e nunca passei por uma situação como essa. Durante esse ano, tanto eu como a equipe, a gente se dedicou integralmente. Foram dias, semanas e finais de semana, 24 horas ligados. A gente tem carência de profissionais de infectologia, então a gente teve que se desdobrar em ‘três, quatro’. E não poderia ter feito esse trabalho sem a ajuda de toda os colaboradores do hospital são francisco”.

Família

“[Período] bastante difícil, porque as crianças são pequenas ainda. As meninas, muitas vezes, dizem: mãe, eu sei que você tem hora pra sair mas não para voltar. Mas eu respondo que preciso atender esses pacientes, estamos nessa situação em que as pessoas precisam de ajuda. Elas compreendem. Elas tem esse entendimento. E a noite consigo estar em casa com elas”.

Cuidados e proteção ao longo da pandemia

“Esses protocolos de precaução foram protocolos que lá em março a gente começou a instituir, fizemos treinamentos no pronto-socorro, e unidades clínicas também. Infelizmente, em função da alta infectividade, muitos profissionais adoeceram. Praticamente todos adoeceram, meu marido também. Alguns mais gaves, médicos internados na enfermaria, no próprio leito que eles atuaram.”

“Nunca faltou equipe, o que ocorre é que devido à alta infectividade, na hora de tirar o avental, a luva, acaba infectando. A gente tem a preocupação com o doente, olhando o exame, e muitas vezes, ao nos paramentarmos, a gente acaba se contaminando, praticamente todos [os médicos] se contaminaram. Eu não tive infecção. Não sei explicar porque, talvez o sistema imunológico.”

Negacionismo e desrespeito

“Em todas as situações graves, se observa essa situação de negação. A primeira reação em geral é negar. Infelizmente, numa situação de pandemia isso pode acontecer e ter reflexos muito graves para o outro. E essas pessoas mais jovens [que não ligam] levam esse vírus pra casa, para pessoas que se resguardam, que são grupo de risco. Isso se observa muito na enfermaria. Não no trabalho, mas em festas, viagens. Pessoas não usam máscara, ficam muito próximas, e esses pacientes têm risco muito grande. É uma total falta de empatia”.

Futuro da doença

“Lá no início do ano, tínhamos uma previsão que não se confirmou. Quando montamos a enfermaria, com 15 leitos, falaram que ia ser pouco, se acreditava que a situação ia até junho ou julho. Aí fomos para uma enfermaria de 36 leitos, a UTI com 16 leitos. E a previsão foi se arrastando, tivemos uma segunda onda, que eu não imaginava que chegasse, Esperava que a vacina viesse até o fim do ano. Pode ser que até a metade do ano [de 2021] ainda muitas pessoas adoeçam e muitas venham a perder a vida. Então é preciso ainda todo esse cuidado e atenção. E essa questão do aglomerado, não podemos deixar de lado agora em janeiro”.

Vacina

“Com certeza é confiável. As doenças infectocontagiosas têm mostrado que a forma de vencer é com a vacina. Várias vidas foram salvas, pessoas deixaram de adoecer em função da vacina. É muito esperada. Lá atrás, na pandemia da influenza, a gente observou que de um ano pra outro, depois da vacinação, a  não houve mortes especialmente no grupo de risco.

“É um insumo confiável. Muitas pessoas falam que vacinas levam ate cinco anos para ser desenvolvida, e agora em um ano apenas. Então a gente tem que agradecer por isso. A tecnologia tão avançada, tantos cientistas envolvidos. É uma vacina feito com vírus morto, então não tem efeito colateral que possa trazer riscos. Essa doença vai amenizar assim que a vacinação começar. Eu espero que com muita ansiedade. Espero que chegue logo para a gente vencer a pandemia”.